janeiro, 8.

aeroporto de irkutsk, sibéria.

acendo mais um cigarro, se vão uns vinte por dia. força do hábito. dizem que tudo que se faz por vinte e um dias se torna hábito: pois bem, fumei micro cenouras por vinte e um dias e as larguei no vigésimo segundo.

ainda havia um alívio ao acender cigarros quando acendi o cigarro do início dessas linhas. não há mais. e o que fazer com essa nova perspectiva de vida? com dias que só chegam ao fim porque são camuflados com fumaças que encobrem o sol? dias em que por não saber o que é o sol, se fecha os olhos e se pensa coisas cheias de calor.

tenho febre e uma placa de pus na garganta. inflamada, irritada, esburacada. cicatrizes que anunciam as feridas.

o café ficou tão gelado que senti um vômito eminente. está tudo desconfortável, como se os órgãos estivessem alocados em lugares inapropriados. uma dormência na perna esquerda e uma pontada na barriga, lado direito.

etiquetas de roupa coçam. os sapatos me deixam com o pé aberto e sangrando e como explicar que isso impede de andar? não explica, criam-se calos ósseos e sapatos manchados de sangue.

ainda sinto o café gelado queimando toda a garganta. zona neutra. escrevi isso umas dez vezes no caderno que molhou durante uma chuva.

estou sozinha. sozinha na sibéria. gostaria de ser os pássaros das minhas costas. beatriz ou cecília.